Saltar para o conteúdo

Autores: Jofina Félix, Mestre em Educação, Psicóloga e Psicanalista. Consultora residente da ELOI COMPANY, Lda e Dúlcia Wacitela, Licenciada em Sociologia, gestora de Projectos na ELOI COMPANY, Lda. 

A empregabilidade juvenil constitui um dos principais desafios do desenvolvimento socioeconómico em Moçambique, particularmente em contextos urbanos marcados por desigualdades, vulnerabilidade económica e limitada capacidade de absorção do mercado formal de trabalho. Apesar dos avanços económicos registados, muitos jovens continuam a enfrentar dificuldades na transição entre a formação e o mercado de trabalho, no acesso ao emprego digno e na criação de alternativas sustentáveis de geração de rendimento (Banco Mundial, 2023; Fundo Monetário Internacional, 2026). Estas dificuldades estão associadas à elevada informalidade laboral, ao desajuste entre as competências adquiridas e as necessidades do mercado, bem como à limitada capacidade de criação de empregos formais para uma população jovem em crescimento (Organização Internacional do Trabalho, 2022).

Neste contexto, os projetos de empregabilidade juvenil implementados por Organizações Não Governamentais (ONGs) assumem uma função estratégica na promoção da inclusão socioeconómica, através do desenvolvimento de competências técnicas, profissionais e empreendedoras. Por exemplo, na cidade de Maputo, estes projetos (implementados no período de 2014 a 2025) respondem às necessidades de jovens expostos a barreiras de inserção profissional, promovendo formação, estágios, empreendedorismo e autoemprego.

A ELOI COMPANY tem sido um parceiro estratégico destas ONGs ao realizar estudos de impacto de projetos de desenvolvimento, utilizando metodologias orientadas para a produção de evidências e para a melhoria da eficácia das intervenções. No ano de 2026, a empresa foi contratada por uma organização não governamental para realizar o Estudo de Impacto dos Projetos de Empregabilidade Juvenil na cidade de Maputo entre 2014 e 2025. O objetivo do estudo era de analisar os resultados destes projetos com especial atenção para os percursos profissionais dos beneficiários, a sustentabilidade dos negócios apoiados e os efeitos económicos e sociais gerados nas famílias e comunidades.

Para alcançar os objetivos do estudo, foi utilizada uma abordagem metodológica mista, combinando métodos quantitativos e qualitativos. A componente quantitativa baseou-se na aplicação de inquéritos estruturados aos beneficiários. E, a componente qualitativa incluiu entrevistas semiestruturadas aos beneficiários, coordenadores de projetos, instituições de formação, empresas acolhedoras de estagiários, parceiros locais e encarregados de educação.

A combinação destes métodos permitiu realizar a triangulação dos dados e assegurar uma análise aprofundada dos resultados. Os dados quantitativos foram analisados através de estatística descritiva, enquanto a informação qualitativa foi submetida a análise temática, identificando resultados, desafios, fatores de sucesso e recomendações.

Os resultados do estudo demonstram que os projetos de desenvolvimentos têm um papel fundamental para fortalecer a participação económica dos jovens. Pelo que a maioria dos beneficiários inquiridos se encontravam a trabalhar no momento de recolha de dados. As atividades por conta própria eram dominantes entre os beneficiários, evidenciando o papel do autoemprego como principal mecanismo de inserção económica juvenil no contexto analisado.

A relação entre formação e atividade profissional revelou igualmente resultados positivos: onde mais de 50% beneficiários indicaram que o trabalho atual estava diretamente ou parcialmente relacionado com a formação recebida. Estes dados demonstram que as competências desenvolvidas nos projetos são aplicadas em atividades económicas concretas.

A avaliação dos estágios profissionais mostrou que esta componente contribui para a aquisição de competências práticas, disciplina profissional, confiança e adaptação às exigências do mercado de trabalho. Assim, os estágios revelaram maior impacto enquanto espaço de aprendizagem prática e preparação profissional do que como via direta de entrada no emprego formal.

No empreendedorismo juvenil, os resultados foram igualmente relevantes. Entre os beneficiários que receberam kits de autoemprego, como estratégia de impulsionar o início do negócio, a maior parte mantinha os negócios em funcionamento. Os negócios mais resilientes foram aqueles com baixos custos fixos, procura frequente e possibilidade de funcionamento a partir do domicílio ou através de prestação de serviços.

O estudo evidencia ainda impactos sociais importantes, incluindo aumento da autonomia, autoestima, responsabilidade, capacidade de decisão e reconhecimento comunitário dos jovens. Foram identificados contributos relevantes para a igualdade de género, especialmente através da participação feminina em áreas profissionais tradicionalmente associadas aos homens.

As conclusões reforçam que os projetos de empregabilidade juvenil necessitam de uma abordagem integrada, articulando formação técnica, competências humanas, orientação profissional, estágios, apoio ao empreendedorismo e acompanhamento continuado. A sustentabilidade dos resultados depende também da articulação entre organizações de desenvolvimento, instituições de formação, empresas e entidades públicas.

Este estudo realizado pela ELOI COMPANY demonstra a relevância da realização de estudos de impacto através de métodos que trazem evidências para compreender resultados, identificar desafios e orientar decisões estratégicas na área da empregabilidade juvenil em Moçambique.

Referências

Banco Mundial. (2023). Mozambique economic update: Shaping the future: Why services matter for growth and jobs. World Bank. https://www.worldbank.org/en/country/mozambique/publication/mozambique-economic update-9

Fundo Monetário Internacional. (2026). Republic of Mozambique: 2025 Article IV consultation: Press release; Staff report; and statement by the Executive Director for Mozambique. International Monetary Fund. Disponível em https://www.imf.org/en/publications/cr/issues/2026/02/19/republic-of-mozambique-2025 article-iv-consultation-press-release-staff-report-and-574050

Organização Internacional do Trabalho. (2022). Tendências mundiais do emprego juvenil 2022: Investir na transformação do futuro dos jovens. Disponível em https://www.ilo.org/publications/major-publications/global-employment-trends-youth-2022-investing-transforming-futures-young

Partilhar:

Notícias relacionadas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.